segunda-feira, abril 03, 2006



Eu me sinto perdido. Desamparado até.
Um turbilhão de pensamentos disconexos me atravessa a mente. Pontigudo. Dolorido. Tudo me incomoda ao ponto de eu não ter mais a certeza se estou são ou a loucura veio me beijar deliciosamente e arrastar-me para o seu mundo. Eu me remexo sozinho, sentindo o suor pegajoso na minha pele aderir à algo que não me deixa ir muito longe. Percebo que estou preso. Alguns dos meus movimentos não correspondem aos comandos do cérebro. Tentáculos quentes me prendem quando tudo o que eu quero é ficar em paz e me sentir livre. Mas quando consigo livrar um braço, o frio que bate nele é ainda pior. Eu penso nela. Para tentar não ficar louco. Eu penso naquela cintura maravilhosa que tive o prazer de segurar com as duas mãos. Penso o quanto era bom mergulhar nos seus lábios e esquecer do mundo, da indecente orgia caótica que impreguina a sociedade. Algo atinge meu estômago com força, arrancando a imagem dela da minha cabeça. Não consigo lembrar do seu rosto! Por que eu não consigo lembrar... meus órgãos se contorcem de dor e eu volto à posição fetal. Deixo escapar um gemido baixo e levo minhas mãos à cabeça, pressionando as têmporas, trêmulo, cerrando os dentes. Algo me destrói por dentro e eu não tenho forças para pará-lo. A besta interior. Suas garras me atravessam o pulmão quando eu tento tossir, produzindo uma gosma espessa na minha boca cujo gosto espalha selvagem pelo meu sistema nervoso. Aquele parasita desce novamente pela minha garganta, rindo de mim, e por onde passa implora para que eu vomite todo o ectoplasma que existe no meu estômago. A falsa escuridão que me envolve não é suficiente para aconchegar-me em seus braços. Não posso enxergar. Tento olhar para minhas mãos mas um jorro ácido, fervilhante, queima meus olhos e faz minha cabeça explodir. Sinto medo, calor, frio, angústia e dor. Quero cortar meus pulsos e deixar a dor fluir vermelha para fora deste receptáculo podre que eu sou. Mas a besta não deixa. Ela urra. De dentro de mim. E o som da fera reverberando pelas minhas veias atinge meu cérebro com força. Enfia suas garras e rasga meu crânio impiedosamente, enquanto grita nos meus ouvidos, esquálida, incansável, em uma repetitiva gargalhada humilhante, tornando-me uma piada maior do que sou. Me arrependo dos meus pecados e mesmo assim ela não para de rir.

CHEGA!
Eu grito em voz alta e estico meus membros com força, soltando-me dos meus grilhões. Abro os olhos e deixo-os queimar. Através de lava e fogo e gelo e dor eu a enxergo e encaro o fundo dos seus olhos vermelhos. Alcanço seu pescoço negro com um salto e o espremo, destruo, gemendo ao tom do ódio puro que flui através dos meus músculos uma última vez. E então ela pára de rir. Volta para dentro de mim, domada. Tudo em mim ainda dói, mas as imagems pararam. Não lembro mais de nada. Não lembro da moça, dos sorrisos, da alegria. Sobra só um mar de saudade e arrependimento. Não há mais o que fazer a não ser voltar para o mundo. Eu despenco de joelhos e me faço perguntas que não sei responder. Um lapso consciente desperta meus poucos sentidos para a única coisa que me resta.

É sexta-feira. Me levanto e vou trabalhar.

4 comentários:

Bill disse...

Bixo..ou o bagulho é forte demais pro seu corpo mirrado, ou você anda exagerando na dose.

El Verdugo disse...

Esse texto tem muito do Vincent...

O "Gordo" disse...

Você voltou a comer quiabo com Marshmallow???!!!!

Lady disse...
Este comentário foi removido pelo autor.