quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Eu não me vesti como deveria naquela noite. Ou ainda, como a sociedade poderia me considerar um homem bem vestido. Eu estava sozinho, novamente. Porém dessa vez escolhi uma pocilga diferente para enfiar minha piedade ácida e diluir no conhaque as memórias de um casamento falho, de uma vida falha, de uma existência dispensável. Meu velho terno preto ainda continha as suaves marcas de bebida alcoólica do dia anterior em suas mangas, a camisa branca amassada ainda exibia todos os traços de uso constante ao redor de um corpo sem vida. Minha língua, amortecida pelo gosto viscoso da nicotina barata expelida pelos diversos cigarros achados num maço na calçada, enrrugava ao contato com o líquido que maculava minha sobriedade como solvente em um quadro mal pintado. Os olhos cansados sobre as olheiras roxas apontavam para baixo insistentes, provavelmente admirando as manchas de sujeira na mesa como um teste de Rorschach, ou desviando-se para o lado, encarando minha auto-estima ao lado das solas dos meus sapatos gastos. Não tive interesse algum em saber, então, porque o barulho ininteligível das conversas ao redor cessou de repente.

Algo dentro de mim palpitou. Talvez uma faísca de curiosidade. Ou perceber que finalmente meu coração havia parado de bater e eu estava livre da desculpa esfarrapada de existir. Não foi o caso. Ela foi.

Usando toda a força que ainda restava nas pálpebras eu vi uma modelo de revista, uma atriz, a mais cobiçada do cinema, a mulher mais estonteante que já cheguei a pousar os olhos no mundo real. Caminhando para o balcão como se fosse dona do lugar. Como se soubesse que cada fracassado bêbado daquele boteco estava babando fora de sintonia por sua fenomenal figura feminina. É claro que ela sabia. E usou isso. Eu comecei a contar, acho que por diversão. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete homens sentaram ao seu lado e tentaram cuspir alguma palavra inteligente e ela os derrubou como moscas. Ela estava se divertindo com aquilo, num tipo de humor doentio e cruel. O canto da minha boca esboçou a mais sinistra reação dos últimos oito anos, tremendo, repuxando e deformando-se na sombra de um sorriso sarcástico.

Baixei os olhos por alguns momentos e balancei a cabeça em negação. Pobres mortais. Era como pedir para uma deusa uma centelha de atenção e ter sua alma arrancada à força por aquele colosso erótico impiedoso. Ergui os olhos novamente e dobrei o cotovelo para mais um mergulho etílico, erguendo o copo até a boca, mas não consegui sorver sequer uma gota. Ela estava sentada à minha frente. Seu cheiro acertou minhas narinas com a violência de um caminhão em alta velocidade. Ela possuia o perfume inocente de uma manhã de outono. Sem que eu pudesse reagir ela deixou escorrer por entre os lascivos lábios a voz mais aveludada que eu já tinha escutado:
-Você sorriu para mim. Mas ao contrário dos outros o seu sorriso foi sincero. Veio da alma. Eu sinto sua essência vital clamar por socorro e mesmo assim expressar um sorriso de desejo, entorpecer sua mente com imagens sobre mim, visualizando e contextualizando minha boca em suas partes íntimas, minhas pernas envolvendo sua cintura enquanto você deleita a realização de um sonho impossível. Gosto quando as pessoas mais podres dessa cidade deixam as emoções transparecer através das simples ações prioritárias ao intercurso social. Considere este então seu dia de sorte, meu caro. Eu me interessei por você. Cortando direto ao assunto, responda-me: você tem algum lugar onde queira me levar ou prefere que seja no meu apartamento?

Baixei o copo e mordi de leve o lábio inferior. Tirei a mão esquerda do bolso e vagarosamente levei-a até o braço dela, apoiado cuidadosamente na mesa. Sua pele quente arrepiou sob o toque gélido de minhas pálidas mãos. Pisquei demoradamente e ousei olhar a deusa nos olhos, nas esferas cravejadas de esmeralda que ela mantinha num rosto impecável. Calculei premeditadamente o tom de voz e o timbre de minhas palavras. Respirei fundo e disse: "Cai fora, piranha. Eu gosto de beber sozinho.".

5 comentários:

Lola disse...

... E o pobre e fudido mortal, derruba com um gancho de direita a Femme Fatale que assombra as noites paulistanas ... Simplesmente o máximo, ADOREI !!!

Lurker disse...

um dos teus melhores textos até hoje

Cybermov@ disse...

Ah, eu adoro historinhas com finais felizes!!

Fefos disse...

Foi o Cassiano o protagonista da história??? hahahahahah

Lady disse...
Este comentário foi removido pelo autor.