quinta-feira, julho 06, 2006


Edgard sabia que aquilo tudo ia dar uma merda imensa. Era só pra ser uma brincadeira! Só curtição! Mas agora ele estava lá, espumando pela boca e tendo sérias convulsões. Mesmo ele tendo falado para seu novo amigo que duas pílulas era demais, o cara não ouviu. Sentia falta agora de amparo, de algo que surgisse do nada e parasse com aquela horrível sensação de desespero, de não ter a mínima idéia do que fazer. Se eu tivesse uma injeção de adrenalina eu aplicava que nem Pulp Fiction. Mas ele não tinha. Tudo que havia a sua volta era a barraca, as mochilas, a floresta e aquela doida varrida de cabelo roxo chorando e berrando como se o absorvente dela tivesse pegado fogo. Gritando alto que não queria ir pra cadeia. Mas até que o garoto estava calmo. Tinha certeza que se simplesmente deixassem o cara ali ninguém ia achar ele por um bom tempo. O moleque era um riquinho idiota que queria ser "descoladão". Os pais dele viajavam muito ao ponto de verem o filho uma vez por mês via webcam. Podia deixar ele alí que ninguém ia achá-lo.
-Vamos enterrá-lo. - disse Edgard descruzando os braços. - Daí a gente pega as coisas e cai fora. Só toma cuidado pra não deixar vestígios no corpo ou eles podem achar a gente. Já assistiu C.S.I.? Os caras são foda.
-Porra! Como assim? Como assim? - veio falando alto a garota, embasbacada com o que acabara de ouvir. - Você não pode tá falando sério! Enterrar o cara?! Porra! Ninguém merece! Enterrar o cara? Porra!
-O que você prefere fazer? Largar o cara aí pros bicho comer? Pelo menos enterra o fulano, dá uma geral na área e zarpa. Ninguém vai achar a gente. E na boa, o cara merece. Tinha perguntado pra mim o quanto será que você cobrava pra fazer um boquete pra ele.
Edgar achou que uma mentira inocente podia fazê-la mudar de idéia.
-Filho duma puta! - a garota correu e enfiou o coturno na boca espumante do rapaz, quebrando-lhe os dois incisivos. - Melhor que morra mesmo então! Corno safado, filho da puta. Moleque filho da puta. Sô vagabunda não tá ouvindo?
-Acredito que ele não só não está ouvindo, como agora é certeza que ele foi pra casa do chapéu. Se ligou que ele parou de tremer? Você matou o cara. Eu achava que você era meio burra, agora eu tenho convicção absoluta. O cara tá lá, tendo uma O.D. nervosa e você mete o pé nele? Agora vão achar que ele foi atacado.
-Porra! Mas... mas... aí... vamo enterrar então. - e ela começou a cavar um buraco com as próprias mãos.
-Na boa? Você que matou o cara! Você cava. Você enterra. Carol: mata mais morto.
-Meu! Vai si fudê! Como assim eu que matei!? Você que deu as porras pra ele tomar! Você que entorpeceu o cara e deixou ele zuadão!!
-Não é a marca do MEU pé na boca dele. - disse Edgard dando de ombros e começando a arrumar a mochila. O cara agora ta mortão por culpa tua. Enterra ele ou eu te delato.
-ÔÔÔ mais que merda! Merda! Merda! - reclama ela enquanto começa a cavar mais rápido.
O rapaz ficou mais tranquilo quando ela achou uma pazinha de jardinagem nas coisas dela e usou-a para abrir um buraco decente. Arrumou suas malas, fechou e dobrou a barraca e deixou tudo como se nunca ninguém tivesse passado por ali. O buraco que a garota cavara já podia facilmente esconder o corpo do outro jovem.
-Pronto. - disse a menina. - Agora só falta...
-COF! - o rapaz largado no chão dá uma tossida horrorosa, cuspindo sangue misturado com uma substância branca que ninguém alí sabia identificar o que era. Imediatamente a garota solta um berro estridente e bate com a pá diversas vezes no rosto do rapaz. Edgar põe a mão no rosto e balança a cabeça.
-Meu deus! Meus deus! Ele não tá morto! O filho da puta é o highlander! - diz ela em pânico. - Me ajuda a por logo o cara na cova! Pelamordedeus!!
Edgar concorda bravo e se agacha para pegar as pernas do rapaz.
-Eu vou pegar pelas pernas você pega pelos brAGH!!!! - o som da sua voz é subitamente interrompido quando a pá de metal atravessa sua garganta. Ele cai inerte dentro do buraco aberto enquanto seu sangue se espalha pela tumba. Carol empurra o outro por cima dele e começa a cobri-los com a terra, seu nervosismo agora inexistente, tendo se dissipado no ar junto com o perfume das Damas-da-noite.
Dá três batidinhas com a pá sobre o monte quando termina. Durmam bem rapazes.
Ela pega o dinheiro e os objetos de valor das mochilas deles, retira a peruca roxa e desenrola o coque negro, ajeita a roupa e joga as luvas transparentes no meio de um arbusto. Caminha para norte, contando valores, cantando baixinho a última música da Britney Spears e lembrando que amanhã ela tem uma difícil prova de física. Quando chega na estrada, pede a Deus que uma carona não demore para passar.


4 comentários:

Nadini disse...

Meuuu eu odeio ler coisas na internet...mas quando vc passa o link do seu blog..eu leio todos os textos novos e não lidos de uma vez...

Você escreve muito bem..e tem uma imaginação latente...

bjinhos
:*

Fefos disse...

Como você mesmo diria: What a fuckin´bitch!!!

Edson disse...

Além da imaginação...

Lady disse...
Este comentário foi removido pelo autor.