terça-feira, junho 09, 2009

-Bom, falamos de mim até agora. E você? Como aconteceu?
-Tiro nas costas. No meio dum bar... nunca mais sento virado pra rua.
-Nossa... deve ser decepcionante morrer de repente sem nem saber da onde veio.
-Pfff... decepcionante foi chegar no paraíso e descobrir que é paraíso porra nenhuma. Que a gente só fica aqui sentado numa nuvem olhando lá pra baixo esperando a reencarnação. Cacete... você viu o tamanho da porra da fila? Minha senha é número 3.748.549.002 e acabaram de chamar a número 16. Isso é decepção.
-Mas pelo menos a gente não passa fome e pode ver o que todo mundo ta fazendo. Quer ir assistir um trio de lésbicas no meio do lets?
-Nah! Já to aqui por causa de mulher. Não ta afim de ir ver um jogo de qualquer coisa?
-Como assim por causa de mulher? Não foi assalto?
-Não. Foi o marido da garota. Digamos que ele não aceitou bem ser trocado. Traído. Trocado é se eles já tivessem terminado. Daí acho que ele atirava nela. Mas ta ok. Antes eu que ela e ainda o filho-da-puta vai ter que passar a vida dele em cana. Provavelmente vão estourar as pregas dele que nem criança com plástico bolha. Uma por uma até não sobrar mais nada.
-Heheheh... sério? Mas a mulher era bacana pelo menos? Valia a pena o risco?
-Porra, ela era fantástica. Inteligente, sexy, charmosa até o osso. Bom, eu morri por ela, não? Morte por amor, cara. Nem foi tão ruim assim. Dói só no começo. Depois você se vê livre de um monte de coisa... contas, problemas etc... morri feliz.
-Mas e aí? Era boa de cama pelo menos? Beijava gostoso?
-Não sei. É... não precisa ficar com essa cara... eu nunca saí com ela. Nunca nem beijei. Era a primeira vez que a gente saia escondido pra conversar. O foda era a vibe... sabe? Quando você não pode nem chegar perto de alguém que seu coração faz questão de dizer que regras não se aplicam, que todo o certo e errado não é branco e preto, é um gigante tom de cinza. E você acha que pode pelo menos por umas duas horas viver no seu mundinho de chocolate onde amor e afeição valem mais do que toda a merda que você assiste na televisão. Que o mundo não é um labirinto complexo de coisas que só podem te foder. Bom, 0,38mm de chumbo disseram que eu estava enganado.
-Mas você faria de novo não faria?
-Com certeza. Eu mal consigo tirar o sorriso do rosto.
-Bom, acho que então eu vou passar o jogo e as lésbicas. Vou lá pra fila da reencarnação. Fiquei empolgado com a sua estória. Quem sabe não arrumo uma pra mim quando eu descer? Vem junto ou vai ficar sentado nessa nuvem estúpida?
-Rapaz, vou ficar sentado na nuvem estúpida. Vou esperar ela chegar assim pelo menos a gente reencarna junto. Quem sabe na próxima vida eu encontro ela antes de um tapado qualquer?
-Verdade... boa sorte então... não parece que ela vai subir tão cedo.
-Não tem problema. Eu espero.
-Abraço! Quem sabe a gente não se vê lá em baixo um dia?
-É.. quem sabe? Abraço rapaz.

Sozinho, ele sobrevoou a cidade em sua confortável nuvem e parou na frente da janela dela. Ela estava acordada ainda. Ele deu um suspiro. Ela parou de chorar.

quarta-feira, maio 06, 2009

E lá voltava ela pelo bosque, com a cesta cheia de guloseimas para sua vovózinha, depois de um dia cheio. Chegando ao seu destino, entrou na casa, colocando a cestinha na mesa da cozinha e foi até o quarto, deparando-se com algo que não esperava. O Lobo deitado em sua cama, assistindo televisão.
-Roberto, o que você tá fazendo em casa? Não ia para aquela entrevista? - perguntou ela, atônita e desapontada.
-Oi amor. Acabou não dando em nada. Ligaram pra cancelar. Relaxa, eu vou arrumar um emprego logo.
-Acho bom mesmo, pois ficar sustentando a casa sozinha não vai rolar. - disse ela, tirando a blusa apertada e colocando algo mais confortável para vestir. Sentiu o olhar de desaprovação morder-lhe a nuca e já se virou perguntando irônica:
-Nossa, que olhos grandes você tem. Posso saber por que essa cara?
-É pra te ver melhor, paixão. E saber de onde você tirou esse capuz vermelho. Meu deus.
-Ele veio junto com o moleton, tapado. Tá vendo? Não precisa ficar com essa cara boquiaberta.
-Gostou dessa boca enorme? Ela serve pra te comer!
-Ah, super romântica essa frase. - suspirou ela - Primeiro me chama de mal-vestida e depois vem querer fazer coisas.
-Não! Pelo contrário... curti muito o moleton. Você fica gostosona. Vem cá vem, vem pro seu lobo mau, chapeuzinho vermelho.
-Roberto, pára com isso! Ninguém te chama de Lobo faz uns 6 anos! Cresce! E além do mais não vai rolar. Não é só o chapeuzinho que tá vermelho pra mim hoje.
-Não faz mal! Vem cá! Eu também curto um caneloni ao sugo! - pulou ele da cama e agarrou-la pela cintura. Ela se desvencilhou das garras taradas do Lobo com um gritinho agudo e foi para o banheiro. O Lobo insasciável, saltou atrás dela e só parou quando a campainha tocou. Chapeuzinho olhou feio para ele e perguntou:
-Tá esperando alguém? Achei que a gente ia ficar sozinho hoje. Tive um dia maldito, atravessei todo o trânsito da Bosque da Saúde e ainda parei no mercado pra comprar as coisas pro almoço da sua avó no domingo. Não to afim de zona.
-Não! - respondeu o Lobo - Não marquei nada com ninguém. A não ser que... - Ele foi até a porta e através do olho mágico reconheceu seu amigo, Carlão, que era conhecido por praguejar contra o governo mais do que deveria. Abriu a porta e gritou ansioso:
-Lenhador! Quanto tempo! Ainda descendo a lenha no PT?
-Fala Lobão! Sempre cara! Então, escuta, to indo encontrar o povo alí no Arnaldo's pruma breja, tá afim?
-Porra cara, to sim. Pera aí. - e virando-se pra dentro do apartamento, ele grita para a chapeuzinho - Amor! Vou dar uma saída rápida e já venho!

Quando a porta bateu atrás dele, chapéuzinho levantou o rosto e fitou seu próprio semblante sério no espelho do banheiro. Pensou que talvez tivesse casado com o cara errado. Pensou que precisava cuidar de seu incômodo feminino. Pensou nos dois. Pensou que deveria existir um Tampax pro seu casamento.


quinta-feira, abril 09, 2009

Foi um dia interessante. Eu saí do trampo na quinta feira e fui encontrar minha mina num café perto do trampo dela. Sabe como é mulher, ela tava toda carentona e queria me ver. Fui lá pra dar aquela paparicada básica e manter a namorada. Não vou mentir pois não sou hipócrito, queria voltar meio que cedo pra casa pra assistir a jogo do timão, mas namorada é mais importante. Encontrei ela no horário combinado e a fofa tava sentada me esperando bonitinha, tomando um copo de café com leite grande e infelizmente fumando aqueles porras daqueles charutinhos que eu odeio. Fiz que não liguei pro bem da relação e dei um beijão nela de saudade e sentamos juntos. Contei brevemente sobre o meu dia e ela descambou de repente a falar sem parar, toda empolgada, sobre o que faríamos depois, nas férias eu acho. Eu não consegui prestar atenção muito, não vou mentir. Sabe aquela garçonete com um puta par de peito lindo que trabalha no café? A minha não tirava os olhos de mim! To falando sério. Descarada. E olhava e sorria e olhava de novo. Mesmo eu tando acompanhado! Vadia no dez! E ficou secando o tempo todo e ia pra trás do balcão e contava pras outras e as baianinhas ficaram sorrindo pra mim também. Eu dei umas olhadas e retribui, claro, mas super descreto, sem minha mina perceber pra não dar bola fora. Não pode dar bandera senão a patroa estressa. Foda. O problema foi quando minha mina virou e perguntou: "O que você acha?" E eu respondi na lata: "O que você preferir tá bom pra mim, amor." e ela sorriu, toda feliz, dizendo como eu era bom pra ela. Mulher é assim, faz o que ela quer que você tá suave. Saímos de lá e eu vim pra casa. O Tuba e o Digão vieram assistir o jogo e trouxeram cerveja. Timão ganhou. Foi um dia interessante.

Foi um dia decisivo. Já fui trabalhar com cólica, como se meu corpo soubesse do meu estado de nervos emocionais. Odeio quando eu não tenho certeza do que eu quero. Não sabia se ainda queria ficar com ele ou não ou se eu ainda aguentava dar uma segunda segunda chance. Liguei pra ele com aquele frio na barriga, sentindo como se meu coração fosse feito de papel machê. Ele foi seco, como de costume quando está sem paciência. Engraçado como ele é completamente eloquente quando quer me comer. Cretino. Acho que foi a gota d'água. Não sei. Nunca sei exatamente. Tenho medo de mim. Ás vezes. Preferi conversar direito com ele e pedi para que ele me encontrasse no Franz lá perto de casa. Óbviamente ele atrasou, de novo. Não aguentei esperar. Estava nervosa mas quando pensava em terminar de vez com ele me sentia aliviada, como se o peso de mais de quatro anos fosse erguido por Hércules e agora eu estivesse livre. Doía mas era uma dor boa. Era a violência da liberdade. E então eu ficava nervosa de novo pensando que ele podia chorar e fazer uma cena. Pedi um copo alto entupido de Baileys, duplo, e uma cartilha de cigarrilha de creme. Mal acendi o primeiro e ele chegou. Nem me dei ao trabalho de apagar, foda-se. Eu sei que ele não gosta mas eu não estava nem aí. Talvez se eu causasse certa raiva nele ele ia levar a separação como algo que nós já devíamos ter feito há anos. Ele me deu um selinho, meia-boca, com mais nojo do cigarro do que com prazer da minha boca. É feio dizer isso mas me deu raiva dele. Vontade de bater com a cabeça dele no assoalho e pisar em cima. Ele descambou a falar sobre o dia dele e sobre tecnologia e aquele ódio foi crescendo até o ponto que eu surtei e falei que nós não estávamos caminhando pra lugar nenhum. Ele respondeu: "Claro que não, nós estamos sentados!" e riu. Eu quis morrer. Daí eu não tive escolha senão contar toda a tragetória do meu sentimento por ele e sobre o que iríamos fazer daqui pra frente. E enquanto eu contava o idiota ficou olhando na cara de pau pra garçonete!! Daí eu decidi. Eu não queria mais aquilo. Eu não queria mais ele. Chega! Eu quero voltar a gostar de mim mesma! Eu não consigo me olhar mais no espelho sem me odiar por estar com ele! E quando eu cheguei no assunto de terminar mesmo, que era melhor pra nós dois e perguntei o que ele achava ele me responde que o que eu quiser era melhor. Daí eu sorri. Eu estava livre. Foda-se se ele entendeu ou não. Eu decidi ali mesmo quando percebi que mais uma vez ele não estava prestando atenção em mim. Foi muito bom pra mim ele ter sido um idiota mesmo no ápice do final. Fui pra casa. Saí pra jantar com um amigo meu. Pedimos vinho tinto. Foi um dia decisivo.

Foi um dia engraçado. Depois do alemão ter colocado álcool zulu no uísque de um boy que insultou a Clélia ainda me chega uma menina que certamente ia terminar com o namorado e quando o tal namorado chega ele passou o tempo inteiro com a braguilha aberta achando que tava abafando. Cobrei uma cerveja a mais e ele ainda me deu o telefone dele num guardanapo. Trouxa. Foi um dia engraçado.

"Take me down to the Paradise City, where the grass is green and the girls are pretty."
-
- Guns n Roses, Paradise City.

segunda-feira, março 09, 2009

Eu não sou exigente. Muito menos uma menina boba que fica sonhando com o príncipe encantado. Eu tenho um relacionamento maduro, adulto. Com os costumeiros altos e baixos. É claro que a gente discute de vez em quando, mas não é briga, é só desentendimento normal. Por exemplo, sexta feira passada. Ele está meio sem grana e combinamos de ficar na minha casa assistindo um filminho com pipoca, só pra ficar junto mesmo. Eu gosto de só ficar junto. Deitar no colo dele e fazer de conta que o mundo é cor-de-rosa. Ele não é lindo de morrer, não é super inteligente nem tem um humor fantástico ou ainda é o cara mais cool da terra. Mas eu gosto dele. COmo eu disse, tenho um relacionamento adulto. Sem sonhos. Por isso que, depois de ter um dia maldito no trabalho, eu cheguei em casa e a primeira coisa que eu fiz foi tomar um banho. Um banho demorado de uma hora quase. Resolvi me vestir melhor que roupa de ficar em casa, queria me sentir bonita pra quando ele chegasse. Podíamos dar uma saída e tomar um qualquer coisa em algum lugar. Um pouco de romantismo ia me cair muito bem naquela noite. Se ele quisesse ficar em casa eu ia deitar no colo dele, assistir o filme e depois dar um beijinho no pescoço dele e fazer aquela carinha que eu faço quando estou afim de transar. Jantar fora seria legal também, então não comi nada esperando por ele as oito e meia. Ele chegou as nove e quinze.

Abri a porta e me apoiei no batente, esperando ele aparecer no elevador. Ele pôs a cara no corredor e já veio com um comentário um tanto infeliz como "Nossa, onde você vai toda chique?". Isso não é elogio, é me chamar de fresca. É dizer que eu não precisava ter me vestido assim pra ficar em casa. Um simples "Você está bonita." teria feito minha noite. Mas ok, não vou brigar por causa de besteira. Veio até mim e apoiou a mão na minha cintura enquanto preencheu a lacuna de uma prova fácil me dando um selinho na boca cheirando à pasta de dente. Passou por mim e já colocou a pipoca no microondas, comentando coisas triviais e o quando o dia dele foi sacal e que o amigo dele tinha feito alguma coisa de moleque, alguma coisa engraçada na hora do almoço. Eu não lembro o que foi mas ri na hora pelo bem da relação. Em menos de 20 minutos estávamos no sofá assistindo o filme que ele trouxe. Ele pegou uma comédia romântica light, filme de menina. Eu adoro filmes de ação e intriga, um bom policial como "Os Infiltrados", por exemplo. Mas mesmo o Hugh Grant falando besteira não ia estragar minha noite. Eu prefiro que ele assuma que eu goste de coisas mais fofas. Abracei ele, que ficou praticamente imóvel durante uma hora e meia e foi gostoso. Afinal, depois de tanto tempo de namoro, não tem mais aquele fogo, o tesão incontrolável, as gargalhadas loucas ou ainda as aventuras pela cidade. O que resta é companhia e carinho. Foi gostoso. O filme acabou as onze e vinte.

Lembrei a boca dele que a minha existia com um beijo suave e mordi de leve o queixo dele. Ele deu um risinho e voltou os olhos para a TV, mudando para um canal onde passava alguma coisa sobre motocicletas. Eu deitei no colo dele, virada de costas para a TV e abri um botão da sua camisa, beijando sua barriga para brincar. Ele se encolheu, rindo, dizendo que fazia cócegas. Voltou os olhos para a TV depois de me beijar a testa. Perguntei se ele queria beber alguma coisa e ele perguntou o que tinha. Eu disse que podíamos sair para uma Smirnoff Ice. Ele fez aquela cara de mal humor cansado. Como se eu tivesse desligado o ventilador interno de um boneco de posto, murchando em desânimo. "A gente não tinha combinado de assistir filme? Você sabe que eu estou sem dinheiro.". Eu não me importava de pagar, eu não me importava de ir no boteco da esquina, mas tudo bem, eu não ia brigar por besteira. "Tudo bem, relaxa, foi só uma idéia." disse eu insólita. Propus então que comêssemos uma pizza. "Mas para de querer gastar dinheiro, mulher! Você já não se entupiu de pipoca?". Mesmo depois de ele me chamar de gorda subliminarmente, eu me mantive calma. Ele pediu para eu deitar no colo dele mas eu entendi algo como "Deita aqui e fica quieta.". Fomos para a cama e depois de alguma insistência da minha parte nós transamos. Foi gostoso. Não foi a melhor trepada da minha vida mas está longe de ter sido a pior. Também não teve a adrenalina, a vontade alucinada de rasgar as costas do outro, mas foi bem gostoso. Ele dormiu as duas e dez, enquanto eu fumava um cigarro mentolado na janela.

Fiquei zanzando pela casa e assisti um pouco mais de Tv, acompanhada por uma garrafa de vinho que eu resolvi abrir. Estava passando Cidade dos Anjos na HBO. Acabei-me em lágrimas com o clichê sobre o mártir do amor. Ainda soluçava enquanto eu tentava me lembrar que aquilo é ficção e nunca acontece na vida real. Aquela coisa toda assim, sabe? Aquilo não existe. Por isso está no cinema. Coisa mais besta se emocionar até em filme da Meg Ryan. Fui deitar meio bêbada as quatro e quize. Ele acordou as dez da manhã beijando minha barriga. Nós transamos novamente e enquanto eu pensava que mulher não goza todas as vezes ele estava no banho. Perguntei o que íamos fazer e ele me disse para eu ligar para ele no final da tarde. "Você lembra que eu combinei com o Eduardo de ir com ele até a Santa Ifigênia comprar coisas pro PC, né linda?". Ele me beijou tão rápido quanto se vestiu e desapareceu na mesma porta que o trouxe para cima. Eu voltei para dentro e pensei que não ia ter nada congelado para almoçar. Acendi outro cigarro mesmo antes de escovar os dentes. Eu não estava triste. Eu não estava feliz. Eu tinha um relacionamento adulto. Eu sou uma mulher realista. Eu sou uma mulher que tem um namorado legal. Eu sou uma mulher normal. Eu sou... eu sou a mulher invisível.

Written By: Verônica Prata

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Eu me odeio hoje.

E odeio quando meu afeto mal interpretado e, porque não, mal direcionado me devolve uma esnobada desnecessária. Quando você quer ser legal e só e a pessoa interpreta como se você estivesse querendo algo além disso. Pelo amor dos meus filhos não nascidos! Estou tão puto que é capaz de eu deletar alguém do Orkut. Que ódio. Por que raios as pessoas não respiram o conceito Live And Let Live e param de julgar, de assumir, de ver o que não está lá?! Estar num relacionamento já é difícil o suficiente sem as picuínhas imagina com elas? É como TV aberta: já é foda de suportar sem os comerciais, com eles então fica na borda do inacreditávelmente horroroso.

Que ódio. Você faz um gesto que achava inocente e o mundo desaba. E você ouve o que não quer. E você não transa hoje a noite. E você come comida congelada. E você assiste televisão sozinho(a). E você escuta um CD antigo pra se sentir nostalgico(a). E você ve a porra da pessoa em tudo quanto é canto e resolve que é melhor amar que ser amado(a). E você se odeia por se sentir assim novamente. E você pensa no futuro. E você lembra do passado. E você esquece que amanhã vai ser presente de novo. E você passa. E você volta. E tudo dá na mesma. E você olha pro céu procurando um zepelim cor-de-rosa brilhante. E você olha ao redor e se vê no espelho. Mas não é isso que você queria.

Você queria dormir de conchinha.

terça-feira, outubro 28, 2008

E num último devaneio onde os dedos digitam mais do que a mente pensa e você quer morrer sem saber a razão pois amanhã vai ser pior que hoje sem pensar e sem pontuação alguma coisa grita lá dentro revoltada mas o que pode deixar tal mente anuviada só pode ser não permitido pois naquele livro que nunca foi lido eu vi um bloco de palavras soltas de mechas negras como eram as roupas e nada pôde frear o desejo de movimentar os dedos entre elas tais palavras nunca ditas ou talvez gastas de tanto usar em mensagem direta de razão concreta e ainda assim subliminar

Não da para dizer em vinte ou quarenta o que se tenta dizer em sessenta mas não soa correto como dizem os bons costumes de ser fofo mas direto o que é idiotice pois costumes acostumaram a mesmisse sem apontar os caminhos demais que parte do centro e curvam-se até o cais pingando pra fora olhando para cima queimando a retina na luz da aurora sem olhar pro relógio nem por bom senso ao ver a fumaça subindo do incenso até o ponto de querer que o tempo parasse a noite caisse novamente e voltar a ser adolescente querendo inocente uma razão para se preocupar

Procurem comprem aluguem achem encontrem sintam a mesma segunda que a minha primeira do abraço escasso e risada verdadeira orgulhoso que respondo onde me enche a cabeça de besteira e me puxa pra trás para não machucar mas mesmo que o caso eu compro um bandeide para tapar só depois do sangue escorrer pois hoje eu posso morrer e virar para o diabo engraçado dizendo que quase me perdeu mas que mesmo no calor do inferno eu viro cinza viro neve viro inverno e discuto o que vai ter para jantar fazendo careta pois depois de um par de cervejas eu engoli uma borboleta

segunda-feira, setembro 22, 2008


O que mais me assusta no "como a vida funciona" é o sarcasmo divino. Ou pode ser também um problema intrínseco do ser humano se interessar por quem não presta, quem não está disponível ou ainda quem é uma pessoa perfeita mas tem um habito ou falha que a torna insuportável, porém inesquecível. Ou ainda aquele negócio de você ter dinheiro para esbanjar mas só conhece tranqueira e quando conhece alguém legal perde o emprego ou não tem mais tempo de aproveitar porra nenhuma pois trabalha 15 horas por dia e acha que o salário compensa a perda de mais de um terço da vida num cubículo minúsculo de escritório que você chama de "minha sala".

É como se deus fosse uma criança neurótica com uma lupa, olhando para um formigueiro e se divertindo horrores com as diferentes maneiras das formiguinhas entortarem sob os raios convergidos de calor. Não sei se com todo mundo, mas comigo acontece isso direto: se você tem a opção de escolher alguém como companhia, você escolhe a pessoa mais difícil, ou aquela que você não consegue bancar, ou ainda aquela que devia ser modelo e que vai te deixar paranóico toda vez que sai sozinha. E não é uma opção consciente. Mas a vontade fala mais alto e você investe tempo, dinheiro e paciência em algo que pode (and in most cases will) te machucar feio. Sair em balada solteiro e conhecer alguém tão interessante quanto, no meu caso uma Audrey Hepburn, é quase como acelerar o carro a 180km/h e torcer pra não aparecer um muro de concreto depois da curva pois você não terá reflexos suficientes para desviar.

É nessa hora que eu respiro fundo e torço pra que na minha idade, a porra tenha ABS de fábrica.

quinta-feira, abril 24, 2008


Esse texto é sobre amor.

Ou talvez a falta dele. Não a falta que ele faz mas sim a ausência de sentimento. O que você ama? De verdade? Poucas pessoas podem responder diretamente essa questão. Menos ainda é o número que pode dizer certamente que ama algo, amor do tipo que não cansa nunca, amor de filme, amor de romance, amor mais perseverante que os 300 de Esparta. Ainda, apenas uma farpa deste bando de pessoas pode fechar os olhos e dizer claramente que ama alguém. E por alguém eu não falo de respeito e carinho e amizade e ternura e toda a baboseira que se escuta geralmente, principalmente de quem é casado. Eu devaneio aqui sobre a paixão ivoluntária, o fogo eterno, aquela coisa que a gente assiste em DVD. Certamente o mocinho faz tudo pela mocinha e acabam felizes para sempre. Ou será que somente o filme corta antes de mostrá-los discutindo as contas da casa ou tendo que levar o par de remelentos que ela pariu para a escola? Ou antes de ela saber que ele largou o emprego para ficar com ela e agora é um vagabundo desempregado?

Qual foi a última vez que você sentiu aquela falta de ar ao conhecer alguém? Aquela vontade de gritar quando a pessoa sorri pra você, a sensação do pacotinho embrulhado na sua barriga que um dia foi seu estômado quando ela chega perto o suficiente, mas não tanto, onde você não sabe se tenta um beijo ou tenta ser sexy? Acho que, após uma certa idade, e claro que devo admitir que existem excessões, nós criamos uma camada superprotetora ao redor desse sentimento estúpido. Chega um momento onde você não consegue mais amar. Ponto. Você sempre vai achar que ela não é boa o suficiente, ou ela não é divertida o suficiente, ou seus amigos não gostam dela, ou você tem medo de sofrer (geralmente de novo) e simplesmente se bloqueia. Se limita. Brinca de bonsai com o próprio "eu" e coloca na cabecinha que nada de muito bom vai vir. Ou seja, romance, por si só, paixão, a vontade surreal e alucinada de estar junto com alguém, morre antes dos 30.

Convenhamos que, caso você já tenha atingido essa idade ou esteja bem perto dela ou ainda ela tenha ficado pra trás faz tempo, você já viveu (pelo menos) um caso de amor tórrido. E você lembra dele, ou deles, e sente falta não da pessoa, mas sim da sensação de perder o chão, de ser alvejado por uma labirintite bizonha quando tal pessoa aparece no local do encontro. Você pode morrer ali, naquele exato momento e sua vida teria sido bem vivida. Amor de filme. Não amor de novela pois ultimamente tudo que se vê na TV aberta é um tentando foder a vida do outro e não de forma que mereça ser filmada. Somos todos voyeurs da tragédia mundial, nesse sentido.

Sendo assim, ergo minha taça de champagne nacional aos que sentem isso ainda hoje, aos que têm a oportunidade e o tesão de viverem esta sensação. Um brinde à labirintite espontânea! Um brinde às borboletas na barriga! Um brinde àqueles que mesmo depois de tanto tempo ainda sentem o que sentiram. E claro, um brinde à nós que um dia amamos mais do que podíamos suportar, que amamos e fomos acometidos pelo mal do envelhecimento sentimental. Outro àqueles que preferiram a vida em solidão amorosa à terem um relacionamento mal-passado. Um brinde à todos nós então, pessoas que amaram, que amam, que amarão. Pois caso tal amor tenha sido destruído ou mal-cuidado ou mesmo devidamente assassinado, bem, vocês sabem o que acontece.

Vendo pelo lado bom da coisa toda, citando Protege Moi do Placebo, pelo menos nos resta toda uma vida para chorar.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008


Olá pessoas. Como diria o diabo na música "Sympathy for the Devil", por favor deixem que eu me apresente: meu nome é Vincent DeLorean. Por mais francês que pareça, o sobrenome é falado como se lê mesmo. Delórean. Como o carro do "De Volta para o Futuro". Tenho 34 anos, sou de altura mediana, cerca de 1,75m, sou magro, adoro ternos e roupas sociais, sou eloquente o suficiente, apaixonado por um vocabulário decente e principalmente por uma boa balada, uma boa música, gastar dinheiro e viver a vida noturna. Mas acho que minha principal característica é que eu não sou exatamente uma pessoa. Não sei direito como explicar, afinal eu vim ao mundo de repente.

Claro, tudo quanto é neném pelado vem ao mundo de repente, mas a diferença é que do mesmo lugar que a maioria deles sai, eu adoro entrar. Não! Nada de ninfomaníaco ou coisa parecida. Eu adoro romance. Sou um dos últimos românticos da terra, pelo que sei, e gosto muito de conversar e ter a companhia deliciosa de uma mulher. Não que eu não seja um cretino, até sou, mas sou um cretino romântico. Há quem diga que nem mesmo um cretino eu sou, pois não costumo mentir. Não sou fã de relacionamentos de longa data pois eu sei, por fato, que estes não funcionam como deveriam. Pelo menos não por muito tempo. Ok, seus avós estão casados até hoje. Não é sobre isso que eu estou falando. É que eu preso exatamente a principal alegoria humana que é limada quando se tem um relacionamento longo: liberdade espontânea. Eu faço o que eu quero, a hora que eu quero. E a maioria das mulheres não aceita isso. Elas têm todo o direito, claro, assim como eu tenho o direito de permanecer solteiro. Mas chega de devaneios. Eu queria chegar no ponto de tentar explicar o que eu sou. Eu sou fruto de um coração partido, somado a uma boa quantidade de dinheiro e um desejo revolto de sufocar o pudor imposto socialmente sobre uma pessoa plausível. Eu sou um alter-ego.

Nasci em meio a lágrimas e dor. Triste. Foi horrível. Quando eu estiver sóbrio eu conto. Resumindo, depois de um relacionamento milenar de oito anos, quando um cara se cansa de chorar ele tem algumas opções: cortar os pulsos, dizer que tudo é passado e voltar pra vidinha mundana, guardando aquela dor em algum lugar fundo ou pirar. No meu caso, agradeço por ele ter pirado, pois senão eu não existiria. E assim, lá fui eu viver a vida noturna de São Paulo pela primeira vez em muito tempo, desde a época que eu era apenas uma idéia dormente numa cabecinha meio oca. Achei que não ia ter sucesso algum nesta infeliz empreitada, mas quando eu descobri que eu tinha algo que a enorme maioria dos homens hoje não tem (cérebro), reparei que as mulheres ainda se interessam por aqueles homens com estilo e inteligência. Sendo assim, sob diversas doses de uísque, música anos 80 e vestindo sempre um bom terno, eu passei a vagar pelas noites paulistanas sem propósito definido, sem culpa, sem dor, sem ninguém pra me dizer não.

E o que eu tenho feito, então, desde que passei a existir? Exatamente o que eu falei: gastado dinheiro, bebido muito, conhecido incontáveis pessoas, matado a vontade de ter um bom beijo e vivido as situações mais surreais que a vida real pode proporcionar. Reitero então, muito prazer, meu nome é Vincent. Eu sou um porra-louca.
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Do livro: "A Vida de Vincent", por Julien De Lucca

Eu abri os olhos e respirei fundo. Segurei o ar nos meus pulmões o máximo que pude aguentar. Senti aquele arrepio galgando minha espinha quando lembrei do homem bruto dormindo do meu lado. As imagens de flashback jorraram dentro da minha cabeça. Óbviamente bêbada, eu bati na mesa e levantei gritando para as minhas amigas que queria mesmo um homem rústico, forte, alto e com cara de mau. Devia ter gritado mais baixo. Um cara me agarrou pela cintura, enfiou a língua na minha boca e me beijou como um neandertal tarado. Passou pela minha cabeça afastá-lo e perguntar "Que que é isso?!" mas ele poderia gritar que isso era Esparta e me enfiar o pé no peito, então simplesmente retribuí da mesma forma e ataquei ele selvagemente. Eu estava precisando disso, sabe, de sentir a pegada mesmo. Sentir um braço forte me segurando. Não que eu não goste de romance, eu adoro, mas ultimamente todo homem que se encontra em balada é ou frouxo ou idiota. Esse negócio de mandar um amigo falar pra mim que um amigo dele gostou do que viu me embrulha o estomago. Parece que os homens de hoje perderam a masculinidade propriamente dita e trocaram ela pela chave de um carro caro ou uma carteira da Victor Hugo. Mas enfim...

Uma coisa óbviamente levou a outra e eu topei "emendar" a noite. "Ah, mas isso é coisa de vadia." Foda-se. Também não suporto mulheres que se agarram aos conceitos sociais da "moça-de-familia". Fala sério. Estamos em 2008 não em 1950. Se eu tenho vontade de dar eu dou mesmo pra quem eu quero. Melhor do que ficar reprimindo tudo e acabar sendo uma perturbada de coração partido chorando por dias quando descobrir que o príncipe encantado se encantou por outra que fazia o que eu faço. Mas voltando...

E foi muito bom. Posso poupar-lhes dos detalhes sórdidos, creio eu. Foi ótimo na verdade. Porém, partindo do fato que ele era meio feinho, vocês podem entender a sensação de acordar sóbria e com dor de cabeça num quarto de motel do lado de alguém que você não lembra o nome. E do jeito que ele era, errar o nome não seria muito salutar. Então fiz o que qualquer pessoa em sã consciência faria: tentei dar o fora. Levantei sorrateira da cama e peguei as minhas roupas no chão. Ele tinha pego um motel caro, elegante, cheio de dependências... que merda! Onde é a porra da porta de saída? Agarrada com meu tubinho preto básico e segurando os sapatos na outra mão, consegui pelo menos achar o banheiro. Coloquei a roupa em menos tempo do que meu pai levaria para perguntar: "Sabe que horas são, menina?!?". Dei aquele tapa no cabelo, peguei os malditos scarpins e voltei para o quarto. A cama estava vazia.

Então, a batida inicial da "Oh My Lover" da PJ Harvey começa a ecoar pelo quarto. Escuto o barulho da hidro a céu aberto começar a funcionar. Um braço me agarra pelo ombro e me puxa contra um tórax que parecia um paredão de concreto. Uma boca me beija a nuca e incontrolávelmente meus olhos se fecham e eu sinto parte da minha voz vazar pra fora da boca. Meus sapatos caem no chão quando minha mão os deixa contra a gravidade e vai sozinha para trás, agarrá-lo pelo cabelo.

Casamos em dezembro.
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Written by: Verônica Prata

quarta-feira, outubro 10, 2007


Nós agora declaramos que as seguintes coisas são extremamente blergs e devem ser evitadas a todo e qualquer custo em ambientes de frequência pública, púbica ou pudica:

1) Jamais chame o próprio pinto de pinto. Pinto não é sexy. É brega pra caralho. Caralho, no caso, só em momentos show de bola. Bola, por sua vez, só entre os amigos num jogo de futebol. Ou pebolim. Pebolim é legal. Voltando ao assunto, nunca diga: "Chupa o meu pinto.". E não use pebolim em qualquer conotação sexual. Não importa o quanto pebolim seja legal.

2) Nunca use meias com papetes. É confortável, eu sei. Mas se mulher gostasse de pé rapado ela te beijaria descalço. E lembre-se disso. Mulher gosta de cara descalço. Não mendigo, mas também não a horrorosa situação do cara pelado de meias.

3) Não faça suas unhas. Cutícula bem feitinha e unhas delineadas são artifícios usados por homens que gostam da mesma coisa que a gente. Não, não é dinheiro, cretinos.

4) Não pergunte quantas vezes ela chegou lá. Isso mesmo que você está pensando. Afinal, se você não sabe, ela provavelmente não chegou lá e se chegou, não foi por sua causa.

5) Não deixe os pêlos do seu playground crescerem livremente, sem restrições. Apare-os sempre que eles ameaçarem a começar a cobrir um pouquinho a área principal. Revelarei um segredo que talvez alguns de vocês nao saibam ainda: aparar o fluf, dá a impressão que seu pebolim é maior. Calem-se! Eu posso chamar do que eu quiser.

6) Não diga "amor" e muito menos "mor" a la Chico Bento. Não é sexy, não é bonitinho e não é romântico. A não ser que você seja do interior de São Paulo. Aí é sexy e bonitinho. Caso contrário, só demonstra sua inteira falta de criatividade e vai causar uma contorção facial discreta na sua jovem amada, mas que quer dizer "blerg!!!!"

7) Não tente ser igual ao Colin Farrel, não vai funcionar com você.

8) Não tente chamar mais atenção que a mulher que está ao seu lado. Se ela gostasse disso, sairia com a Globeleza em época de Carnaval.

9) Seja macho e não negue seus atos. Peidou? Assuma! Mas não faça disso um hábito.

10) Talvez sua namorada goste de "brincar" com outras mulheres, talvez não. Se ela gostar, não a reprima por isso, aproveite. Se ela não gostar, termine com ela e procure uma que goste.

11) Você é musculoso? Legal, hein amigão. Agora tenha o mínimo de bom senso e não saia por aí desfilando de regata. A não ser que você esteja na praia. Ou seja carioca. Os cariocas podem. O importante é que nem toda mulher gosta de homem musculoso e você, muitas vezes, só faz papel de ridículo.

12) Não tente ser mais sexy do que você realmente é. A linha entre o sensual e o ridículo é muito tênue, portanto, deixe o olhar 43 para quem realmente sabe fazer bom uso dele.

13) Nunca cante música sertaneja achando que você vai conquistar uma mulher. A não ser que você esteja em Barretos. As mulheres que frequentam esse limbo gostam disso e merecem esse castigo por toda a eternidade. Mas se você costuma ir para Barretos, por favor, morra. A humanidade não merece ter que conviver com você. Aproveita e leva com você para o inferno todos os cantores que estiverem se apresentando por lá.

14) Seja metrossexual, mas não ao ponto de chegar em casa empolgado, dando saltinhos de alegria e querendo mostrar a camiseta liiiinda que você acabou de comprar na Cavalera. Isso é ultra gay.

15) Não vá buscar a sua namorada na faculdade, numa sexta a noite, de calça de moleton, havaianas e meias. Ela teve muito trabalho para inventar para as amigas o quanto o namoro dela é agitado e bacana e você vai jogar tudo isso por água abaixo, quando as amigas descobrirem que ela vai para a sua casa comer yakissoba e assistir Globo Repórter, até você começar a roncar no sofá. Na verdade, não use calça de moleton em público nunca. Mais uma vez: é confortável, eu sei. Mas só demonstra que você é preguiçoso o suficiente para não vestir uma calça jeans.

16) Não use ringtones no seu celular com uma voz de mulher dizendo "atende, gostosão", ou qualquer coisa do gênero. Exceto se você for corinthiano. Aí você até tem uma explicação plausível para ser cafona a esse nível.

17) Se você não for gay, não dance axé. Nem funk. Nada neste mundo broxa mais uma mulher do que um cara suado, rebolando com a bundinha empinada ao som de "toma, toma, toma". Quer dizer...calça de moleton e papete com meia talvez sejam.

Written By: Kátia Madalena

terça-feira, outubro 09, 2007

Eu preciso parar de beber. Sério. Mesmo que digam que minha personalidade desinibida e inconsequente seja fruto direto do álcool. O que vocês acham?

Eu digo isso pois parece que só consigo dizer o que eu digo e fazer aquelas coisas sem noção que eu faço quando eu estou retardado. Não sou alcoólatra, afinal, só bebo quando eu saio para a balada. E sempre saio sozinho, vocês sabem. Assim se eu porrar o carro por dirigir um Fiesta achando que é uma McLaren a culpa é minha. Brincadeira, eu dirigo direitinho. Juro. Mesmo quando a peolha reclama que eu não paro em farol vermelho. Mas voltando ao assunto, eu assumo que tenho um vício: beijo na boca. Acho que é a adrenalina da conquista, o frio na espinha quando você está a 2 centímetros de uma pessoa nova, o papo de horas antes, provocando reações numa orgia psicológica que entorpece seus sentidos e faz você sorrir sem querer. Por isso que o álcool ajuda. Não por tornar as pessoas mais bonitas, mas as tornam mais interessantes. E não pergunte por quê de repente eu estou tendo crises de lei-seca. Eu explico.

-Tem algo nos seus olhos que eu adoro. Que desperta em mim um certo tipo de felicidade que só existe em filme P&B.
-Mesmo? - disse ela sorrindo para mim, dobrando o rosto para o lado em falsa inocência. - O que você vê?
-O meu reflexo. - e abri um sorriso sarcástico.
-Haha, seu narcisista. Você acaba de me dar um motivo a mais para não te beijar.
-Eu sei, você vai fechar os olhos se fizer isso. Mas, você também pode me beijar de olhos abertos se quiser.
-Desculpa, mas eu não faço isso. Aliás eu tenho certeza que você também não faz. - ela me olhou daquele jeito maldito. O jeito que me faz esquecer que eu sou arrogante e orgulhoso. Aquele jeito quando uma mulher te olha e você escuta sua boca proferir que quer você, sem dizer uma palavra. Você e só você, mais ninguém naquele momento impecável. Aquele punhado de segundos que precedem um beijo histórico.
-Não tenha tanta certeza mulher, afinal só existe uma coisa melhor do que um bom beijo.
-O que? - ela perguntou baixinho, me olhando de baixo para cima, se aproximando da minha boca em bullet-time.
-Dois. - agarrei ela pela nuca e mordi de leve seu lábio inferior, soltando rapidamente e voltando lentamente com a língua por entre seus lábios. Meu coração disparou. Senti seu corpo coberto por um leve vestido decotado sorver o calor da minha pele. Da minha boca. Agarrei-a pela cintura com o braço esquerdo, envolvendo-a toda em mim. Ela tinha razão. Eu fechei os olhos.
-Você anda tomando muito uísque. - disse ela baixinho com um risinho sobressalente. - Seu beijo tem gosto de Red Label.
Eu ri junto com ela e lembrei da minha avó me dizendo que eu não deveria beber muito. Passei a mão no seu rosto e abri os olhos.

E lá estava ela nos meus braços, meiga e matriarcal olhando para mim em reprovação. Minha doce e querida avó. Afastei devagar e vocês devem imaginar a minha cara de empadinha. Quantos uísques eu tomei? Oh bom deus, por que não uma prima distante? Uma prima distante dava para encarar, mas a vó é foda...

-O que foi?! - perguntou vovó assustada. - Eu estava brincando.
-Nada. Eu acho que eu não estou legal, só isso. - fechei os olhos fortemente, implorando aos quatro ventos que vovó fosse transmutada de volta na morena de lábios Angelina Jolie que estava alí há pouco tempo.
-Que foi? Não me diga que vai dar a desculpa que está bêbado.
-Não! - disse eu abrindo os olhos novamente, tentando ser gentil. Vovó agora fazia cara de brava como quando eu fico semanas sem ir visitá-la.
-Não o que? Você não esta dizendo coisa com coisa. Se arrependeu, foi isso?
-Muito pelo contrário! Adorei! - e então a imagem do meu avô, ex-militar, fardado e com um porrete na mão veio me atingir no olho como um pai homofóbico que pega o filho brincando de urologista com o sobrinho mais novo do vizinho. - Oh céus... avô é foda.
-Avô o que?! Olha, se você vai fazer esse teatrinho ridículo como desculpa para sequer pedir meu telefone, eu vou embora.
-Eu tenho seu telefone, vó! Não! Calma! Ai caraleo...
-Hey! Como você é cretino! Eu não sou tão mais velha que você assim! Tá me chamando de acabada?
-Como se a culpa fosse minha e não do tempo!

Vovó não teve dúvidas. Jogou o copo cheio de sprite com licor de menta na minha cara, pronunciou palavras de baixo calão para uma mulher da sua idade e passou por mim em passos firmes. Eu respirei fundo e bati a cinza do cigarro contra o vento fazendo uma pequena brasa arrombar, irrefreável, minha camisa de seda vermelha e queimar meu umbigo. Olhei para dentro do copo inerte sobre a mesa e o resto de uísque solitário acenou para mim. Fui buscar um energético para fazer-nos companhia.

Written by: Vincent DeLorean

terça-feira, julho 31, 2007



Raramente eu tenho alguns minutos para pensar em mim. No que eu fiz em todos os anos da minha existência. E como a maioria das pessoas que se perdem por instantes em um flashback até agora, eu penso nelas, nas mulheres da minha vida.

Eu tive poucos relacionamentos sérios, dois apenas, bem diferentes um do outro. Uma era extrovertida, a outra bem mais tímida, porém ambas fizeram eu me sentir confortável e bem. Tivemos momentos ótimos, outros nem tanto, mas a segurança de estar nos braços delas era deliciosamente divertida.


Então elas se foram, como era de se esperar. E a solidão hipócrita me acompanhou por um tempo até que eu a conheci. Com sua estatura imponente, seus cabelos negros, sua índole inabalável. Não poderia eu nem ousar pensar em algo além do padrão social mas ela decidiu por nós dois quando forçou sua boca contra a minha a primeira vez, de repente, inusitada e espontânea. Marcando à ferro seu toque em minha consciência. Tirando-me do sério. Fazendo-me ousar tomá-la nos braços uma vez mais em meu egoísmo altruísta e morder seus lábios inconcientemente. E depois agir com a naturalidade de uma guerreira épica, indiferente, fechada, ilesa e ainda sorrindo misteriosa.


Estar do seu lado é muito diferente do que estar do lado de uma pessoa qualquer. Eu me sinto frágil, vulnerável e inocente. Ela ri e me olha de canto. Eu morro por dentro. Não passo de uma marionete dela até sentir suas unhas nas minhas costas. Então me torno indestrutível, superhumano, vitorioso e tomo seu corpo como meu espólio. Ela é minha amiga, mulher, amante, executora, amazona, nêmesis, luxúria. Ela não precisa de mim. Ela me quer quando quer. Ela não é igual a mim. É melhor.


Eu percebo ela entrando pela porta mas mantenho-me em silêncio. Ela me abraça pelas costas e sussurra algo no meu ouvido. Eu não escuto. Ela repete:
-Clark? Devemos ir agora.
-Como quiser, Diana.

segunda-feira, junho 18, 2007


Embora. É. Isso mesmo que você ouviu, maldita. Estou indo embora. Pode falar o que quiser, implorar para que eu fique, já não me importo mais. Não vou deixá-la foder com a minha vida como você fez com todos os outros antes de mim. Acabou.

Não suporto mais passar por todas essas situações vexaminosas provocadas por você, com esse sorrisinho sarcástico no canto da boca. Deveria ter te mandado à merda anos atrás, enquanto ainda tinha uma fração maior da minha vida pela frente.

Passei pela empresa e dei uma desculpa qualquer, dizendo que precisava passar uma semana fora para resolver problemas de ordem pessoal. Claro que ninguém ia questionar nada. Não ganhando o salário que eu ganho. Rá! Chamar o que eu ganho ao final de cada mês de salário, é chamar o que eu faço de emprego, como se ambos não fossem patéticos.

Uma semana. O cacete! Já era. Não volto mais. Aquela vadia acabou com qualquer esperança que eu pudesse ter de levar uma vida um pouco melhor ao seu lado.

Ainda me lembro de quando a conheci. Fiquei excitado como um moleque de quinze anos ao ver os seios de uma mulher saltando pelo decote. Seu cheiro penetrou minhas narinas à força. Prometi a mim mesmo que nunca ia deixá-la. E agora acabou. Maldita.

Rumei para o pardieiro úmido em que (sobre)vivo para pegar umas poucas roupas e enfiá-las numa mochila. Olhei para a pilha de contas cada vez maior sobre a madeira descascada da mesa da sala. Fodam-se. Não vou voltar mesmo, logo, não preciso pagá-las. Mesmo que tivesse dinheiro para isso. Passei pelo banheiro para olhar meu rosto naquele espelho manchado pela última vez. Nunca entendi como envelheci tão rápido. Só pode ter sido culpa dela. Maldita.

Joguei a mochila dentro da velha picape. Percebi que minhas mãos tremiam como as de um verme alcóolatra que fica alguns dias sem beber. Ajeitei-me como pude no banco puído que já viu dias melhores e olhei o retrovisor. São meus olhos? Esses globos opacos circundados pela vermelhidão, quase saltando das próprias órbitas são meus olhos? Deus. Preciso me afastar dela. Agora.

Após alguns quilômetros na estrada, olho novamente o retrovisor, vejo aquela nuvem cinza de poluição e sei que ela está lá dentro esperando que eu volte. Pacientemente. Ela que espere. Sentada. Para sempre.

Quase uma semana depois minhas mãos já não tremem tanto. Meus olhos já não parecem tão arregalados e recuperaram algum brilho. Meus pais provavelmente já têm a certeza de que estou me drogando, embora não me perguntem nada. A única pergunta é a pior possível: “Quando você vai voltar para ela?”. Antes que possa me dar conta respondo num sopro angustiado: “Domingo”.

Eu chego à noite e tudo parece pior. Ela está iluminada, me atraindo como uma mariposa estúpida para sua luz e me recebe de braços abertos. Posso ouví-la sussurrando em meu ouvido: “Eu sabia que você voltaria para mim”. E eu concordo. Com os olhos ficando vermelhos novamente, eu concordo. Abro a janela do carro ao passar sobre um rio morto onde meu avô já pescou um dia e sinto seu cheiro. Seu cheiro novamente rasgando minhas narinas e esmurrando meu cérebro. Já era. Nunca mais vou conseguir ficar longe dela. “Eu amo você, metrópole maldita”.

Written By: Reggie Boyo

terça-feira, junho 12, 2007



Eu olho em volta e não consigo enxergar exatamente qual o sentido de tudo isso. Da necessidade de acordar cedo e trabalhar muito para se ter respeito ou de comprá-lo com muito dinheiro. Da necessidade de se encaixar num padrão social distorcido que um dia inventaram. De fazer o que é certo mesmo sabendo que foi um grupo de humanos normais que decidiram o que é o certo em si. E eles também erram. É como se a minha vida fosse regida pela rotina tediosa que a sociedade impõe, mas escutando aquela voz no fundo da cabeça dizendo que isso não está certo. Como se meus dias fossem narrados pela espontâneidade sinistra de Christopher Walken.

Tenho quase certeza. Quase. De quando eu chegar no fim da minha vida eu vou me arrepender de não ter feito um monte de coisas. De não ter chutado um monte de gente da minha vida pois eu sou um palhaço de coração mole que quer agradar todo mundo sem esperar nada em troca. Pois isso que me ensinaram. Que dar sem querer receber é honrado, nobre, altruísta. Tenho certeza que no fim vou perceber que tudo o que fiz, fiz por ser um idiota que acreditou numa ideologia falha. Quando meus melhores momentos forem apenas lembranças distantes. Quando eu estiver velho e cansado como Christopher Lee.

Tudo não vai passar de um conjunto de momentos que foram interessantes naquele momento específico e depois se tornaram motivo de piada. Como se eu não tivesse existido e sido um sucesso um dia, como se um dia pessoas não tivessem me adorado, me amado, me chamado por elogios diversos. Eu serei esquecido, eventualmente, por tudo e por todos. Afinal é assim que o mundo funciona para a enorme maioria da população. Você tem seus momentos bons, mas eles só afetam um punhado de pessoas que não se importam de verdade com a sua existência mal atuada, no melhor estilo de Christopher Lambert.

Mas ainda há tempo! Para todos nós, acredito! De mandar todo mundo se foder e se dar bem com isso. Falar o trivial para despertar um sorriso numa pessoa que você gosta, de trepar a noite inteira com aquela outra que você admira, de olhar pra sua cara preguiçosa no espelho e sentir que você é a única coisa no mundo que importa, pois só você vai estar do seu lado nos seus piores momentos. Usar as mazelas do mundo como escada para se destacar, ser feliz e ainda rir muito com isso. Como Christopher Rock.

Que assim seja, então! Chega de criancisse, de pessoas que se apóiam em imagens fúteis e aparências decadentes para ter seus minutos de fama vã. Chega de adular o bando de palhaços que me adicionam no Orkut para se sentirem cheios de amigos ou aqueles que querem saber o que eu faço da vida por acreditar que é o trabalho que molda a pessoa. Eu sou aquele que enxuga as minhas lágrimas, que paga minhas contas, que beija minhas mulheres e que ri do mundo enquanto ele bate na minha cara. Seja mais você pois eu certamente sou mais eu. E se vocês se sentirem mal com isso, que meu círculo social se parta ao meio e morra. Como Christopher Reeve.

terça-feira, maio 22, 2007


E lá estava eu, sorrindo como se tivesse feito clareamento dentário com desconto, adentrando a mesma espelunca de sempre, numa sexta feira dessas. Desssa vez deixei o terno em casa, estava usando aquele casaco preto de fundo vermelho escuro, que vai até o joelho. O lugar estava como sempre, cheio de criaturas esquisitas, sujo e bem animado.

Cumprimentei algumas figurinhas marcadas no caminho de praxe até o balcão e acenei para o barman. "Mojito!", gritei eu assim que ele prestou atenção em mim. Atendimento VIP. Em menos de um minuto recebo meu copo bem cheio do bom e velho Red Label. Na verdade acho que o cretino só me entendeu da primeira vez que eu entrei e apontei para a garrafa por causa do barulho. Depois disso ele se permite assumir. Se eu chegar hoje e pedir a mãe dele mal passada com cebolinha e coca-cola, o puto me traz um Red Label. Enfim, primeiro gole bem dado, para desinfetar a garganta e notificar o fígado que ele vai ter de fazer hora extra, quando eu olho para o lado e vejo uma mulher acenando para mim, sedutora, com o indicador minhocando frente ao rosto a me chamar para perto dela. Olhei para dentro do copo e para o relógio para checar se eu não tinha passado por um lapso de memória como de costume. Olhei para os lados e para trás para ver se era comigo mesmo e até perguntei pro barman se ele também estava vendo uma mulher sozinha na mesa me chamando. Ele me trouxe outro Red Label.

Não vou mentir dizendo que ela era linda, não era. Mas estava muito bem vestida, com uma dessas roupas de marca combinando com o sapato e etc.. Seus cabelos ruivos escorrendo pouco abaixo da altura do ombro, mal escondiam o rosto de vinte ou vinte e dois anos, adornado com um minúsculo piercing de brilhante no nariz. O batom roxo escuro e o perfume seco combinavam com o lápis contornando seus olhos. Sentei-me ao seu lado, coordialmente, deixando um dos copos na frente dela. Ela começou o diálogo perguntando: "Você gostaria de me beijar?" eu dei uma tossida leve e olhei para os lados procurando a câmera escondida. Não encontrei então respondi da forma mais direta possível:
-Macaco gosta de banana?
-Como assim? QUe papo é esse? Como eu vou saber? - exaltou-se.
-É uma expressão. Algo como "Claro que sim!".
-Claro que o que? Você me achou uma macaca? Quer me dar a sua banana? - começou a ficar brava.
-Não! Eu disse macaco. Com "o". Mas esquece. Claro que eu quero um beijo seu.
-Fala sério... eu me abro em sorrisos e você vem com um papo Discovery Channel. E agora quer beijo.
-Bom, eu não vou fazer nenhuma dança do acasalamento, então beijo é legal.
-Você acha que eu sou algum tipo de cadela pra você tratar assim, é?!?! - ficou puta.
-Caraleo... achei que a gente tivesse falando de macacos. E meu beijo?
-Olha, desculpa querer ser legal com você, tá?! - levantou e foi embora levando meu segundo uísque.

Acendi um cigarro enquanto olhava para ela indo embora e pensando que as pessoas perderam muito o senso de humor. Quase ninguém hoje em dia consegue beijar sorrindo ou falar besteiras de amor por brincadeira. Todo mundo leva tudo muito a sério. Tudo é muito plástico, artificial. Beijar alguém na balada é quase como tomar um tang por 50 centavos na barraca de hot-dog da esquina. Perguntei pro barman o que ele achava de tudo isso.

Vocês sabem o que aconteceu.

Written By: Vincent DeLorean

segunda-feira, maio 21, 2007


Eu não tenho certeza que posso viver de música e poesia, todos me dizem que não mas eu não me importo, o mundo não é tão feio assim, ou é? Ou eu que estou ficando doente. Como uma amiga me disse, a coisa mais doente está na mente da gente. E se eu me apaixonar de novo? Daí então fodeu. Uma hora ou outra vou chorar. Porra, mas e daí? Eu não tenho medo de chorar. Ou tenho? Mas eu não estou com cabeça para um relacionamento agora. Estou sem dinheiro e sem estrutura para me manter. Claro que eu quero colo e toda a parte social e física, mas não posso. Por que mesmo que eu não posso? Na teoria o mundo gira em torno do mesmo eixo e assim a vida também pode girar ao meu redor. Certamente. Ela gira a meu redor. Ou não?

Não acho que sei o que eu estou fazendo exatamente a cada dia que passa, a não ser exacerbar a certeza de que eu estou ficando velho e não vivi o suficiente ainda. Mas se eu vou viver 100 anos, ainda nem cheguei no primeiro terço da minha vida! Claro que eu posso ser atropelado amanhã, mas isso é bem raro de acontecer. Não é? Eu olho para atravessar a rua sempre! Droga, e se eu for mesmo atropelado amanhã? Será que eu vivi o suficiente? Tive momentos ótimos na minha vida, mas não sei se posso fazer um Top 5. Será que vai doer? Será que eu não desperdicei um grande amor ou uma chance de ganhar na loteria? Eu costumo muito sofrer de véspera. Isso é ruim, não é? Ou não?

Mas se devemos deixar a coisa rolar e o destino nos guiar, isso não nos tira o poder de escolha? Mas se nossas escolhas já estão programadas ou algo do gênero, por que raios temos que enfrentar a experiência? O que importa é o destino ou a jornada? A jornada claro. Mas se você não chega em lugar algum, a jornada não é completamente perdida? E se o caminho todo for circular e sua vida é uma música presa em repeat eterno? Isso é um pensamento realista? Horroroso? Ou não?

Eu acho que eu tenho certeza que se pode viver então de música e poesia.

quarta-feira, maio 09, 2007


Não lembro direito como eu a conheci, mas eu lembro da primeira vez que ela encostou as unhas afiadas no meu peito. Da primeira vez que ela suspirou uma besteira erótica no meu ouvido. Da estática corrente nascendo do atrito dos meus dedos em suas costas nuas. A melhor noite da minha vida.

Não sei se foi por causa da sensação ébria da bebida ou aquela sensação de briga de egos quando se está com uma mulher na cama e você quer provar para você mesmo que pode fazer melhor. Quando você quer impressionar e ela também. Daí a coisa toda começou a ficar violenta e eu não consegui parar. Ela me mordia e arranhava e comprimia meu corpo contra o dela, gemendo palavras sobre amor, paixão de longa data, devoção. Eu pedi para ela parar mas ela continuava, cada vez mais forte, entorpecendo meus sentidos e literalmente tirando-me fora de sintonia. O orgasmo mútuo veio junto com minha assinatura púrpura em volta do seu olho.

Eu fugi de alguma forma, entre a sensação ardente do sexo selvagem e a vergonha de ter batido nela, sentindo a adrenalina cuspindo ácido dentro das minhas veias e implorando por mais. A sensação de poder misturada com o medo e o vício de querer mais é a pior droga do mundo. Como um parasita num corpo perfeito. Ainda sentia o gosto do suor dela na minha boca quando o telefone tocou, carregando a voz dela, perguntando por que eu tinha ido embora.

Ela disse que me amava. Que o que eu tinha feito não era nada comparado àquilo. Que amor verdadeiro é o amor cruel, se não machucar, é coisa de criança. Que eu não havia acertado seu rosto, eu havia acertado seu coração. E como se amor para ela fosse um esporte, ela me pegou pela garganta, enfiando as pontas dos dedos no meu rosto e mordeu meu lábio inferior como uma ave de rapina. O gosto do sangue me tirou do sério.

Sexo. Em sua forma mais psicótica e visceral. Não eramos mais humanos. Éramos animais que nunca tinham sentido prazer comparável com aquele. Sexo, não. Uma foda surreal, uma trepada cósmica. Não existem adjetivos para descrever o que ela me fazia viver, explorando meus cinco sentidos como se tivesse lido um detalhado manual sobre eles. E falando, incessantemente, que me amava. Que eu era dela. Que ninguém mais ia tocar meu corpo. Que eu podia rasgar meu RG que eu havia perdido a identidade pessoal. Eu era dela. E o pior de tudo é que ela tinha razão.

Estamos juntos ha quase um ano. Quando ela me beijou pela primeira vez eu me entreguei a uma briga que ninguém pode vencer. É engraçado como nos entregamos fácil para uma vida de servidão, como um escravo, mesmo que sua mente diga não, seu corpo ri na cara dela. Num relacionamento que só vai machucar e você se joga de braços abertos. O mistério do comportamento humano só assusta mesmo quando você está comprimido sob o poder físico de uma mulher.

Destruição dos meus nervos, acrobacias que nunca pensei ser capaz de fazer, sem piedade, sem fé, sem futuro. Amor verdadeiro é amor cruel. Nada para se orgulhar.

Mas tudo por um final feliz.

segunda-feira, abril 16, 2007

Tenho quase certeza que foi o mentolado gosto da pasta de dente afixado na sua língua que me deixou enjoada o resto do dia. Naquele beijo sobre o sorriso opaco antes de sair de casa. A promessa de um mal presságio cultivado pela rotina ignorante dos nossos dias mais felizes. Eu nem havia levantado da cama ainda quando o telefone tocou.

Eu não perguntei seus motivos, nem questionei as razões da covardia plácida de dizer para mim ao telefone que não aguentava mais. Que não mais se sentia vivo. Que iria embora. Eu ri. Afinal, pelo menos ele não havia saído para comprar cigarros e materializado a profecia urbana. Se não me engano eu deixei o telefone cair. Batendo forte no chão, junto com meu corpo. Uma sensação de liberdade e excitação explodiram dentro de mim. Eu sorri complacente e o mundo todo ganhou outra coloração. Eu estava feliz pela primeira vez em muito tempo. Realmente feliz.

Não peguei nada do armário ou lembrei de trancar a porta ao voar para fora de casa. Daquele lugar maculado onde tanta coisa negra vivia. E atravessei a rua, atravessei o medo, bebi a incerteza com gelo e vodka e música. Caminhei saltitante pela estrada solitária em direção ao mundo sem paranóias, sem análises, sem neuras e principalmente sem lágrimas. Sem as promessas sem propósito.
E ao final desta estrada eu percebi exatamente quem eu era, eu me reconheci no reflexo balbuciante desenhado no espelho.

Eu não estava feliz. Eu era a felicidade.
Eu não estava alegre. Eu era a alegria.
Eu não estava bem. Eu era uma farpa da onipotência divina.

Ganhei minha liberdade quando larguei aquele corpo aos prantos no chão do quarto, para nunca mais voltar.

Written by - Verônica Prata

domingo, abril 08, 2007

Dentro dos vários anos que eu já vivi, pisando nessa terra, eu posso dizer que não senti isto muitas vezes. Talez eu tenha me enganado algumas delas, sob os homéricos porres de uísque ou sob todas as vezes que me peguei usando a tecla "backspace" para apagar alguma memória obscura. Sabe aquele balançar de pernas, o jato de adrenalina quando ela chega próximo demais de você, a sensação de perder os sentidos quando ela pronuncia seu nome em público?

O inferno era o mesmo de sempre quando ela aportou e olhou no meu rosto, como se me conhecesse ha anos. Como se soubesse o jeito que eu gosto de ouvir meu nome ser pronunciado. E daí pra frente o clichê horrendo de tudo aquilo que eu não suporto ver ou ouvir em tudo quanto é midia de massa ocorreu sem o mais sutil preconceito. A troca de olhar padrão, os momentos perdidos. Tudo aquilo que todo filme da Meg Ryan tem pra oferecer. E eu sorri. Espontêano.

Na última tropeçada sem querer eu relei meus lábios nos dela e ouvi o anjo dizer para me afastar, para evitar a rejeição, para assumir minha tenra covardia e colocar-me no meu lugar de apaixonado platônico. Back off. Breathe. Take your time. E o diabo sentado complacente no outro ombro profere que eu deveria arriscar. Afinal, é só um beijo. O que de errado poderia acontecer? Um salto de fé. Um salto de fidelidade ao seu lado ruim. Um punhado de segundos foi o necessário para tomar distância e pular. Foda-se. O que de errado poderia acontecer?

O toque da sua pele nas pontas dos meus dedos, sua respiração ricochetiando no meu pescoço como música, seus lábios abraçando os meus como se fossem amantes milenares num conto épico de glória e vingança, seu cabelo escorrendo macio sobre minha pele áspera, dizendo aos meus cinco sentidos que eles não eram suficientes para tê-la por completo. Gritando pro mundo que nada poderia chegar aos pés da sensação iminente de um romance de madrugada. Suas pernas se perdem no limbo. Seu rosto passa a ser um reflexo surreal. Seus braços adquirem vida própria. Você não é você. Você é ela.

Horas depois, com os olhos açoitados pela luz do dia, você acorda e se coloca no lugar onde sua timidez insiste em te deixar. Seu passado espanca seu rosto como uma lembrança que você não consegue alcançar por completo. Tudo faz sentido por ter sido um sonho. Mas a incerteza rasga sua razão, afiada.

Tanto quanto os lábios dela.