domingo, maio 07, 2006



Ela já andava se sentindo sozinha por meses. Talvez até sozinha demais, literalmente. Não que isso seja desculpa para cometer adultério, mas as vezes nossos instintos e vontades se misturam num pensamento entorpecente que não conseguimos controlar. E quando ela o viu, alí sentado no canto do Café, lendo o jornal do dia às oito horas da noite, usando aquele chapéu, ela foi dominada por uma sensação de graça e interesse. Foi sim, mais forte que ela. E o mais interessante era o fato de ninguém reparar que havia um homem de chapéu e terno, num Café em pleno centro, lendo jornal. Ele era sensual e exótico demais para não ser reparado. Lembrava um quadro de Rembrandt. Foi como acontece nos filmes: quando ela deixou escapar um sorriso, ele ergueu seus olhos acima do jornal e a viu. Com todo charme de um gentleman inglês ele imediatamente dobrou sua leitura sobre o colo e levantou-se, caminhando como se flutuasse por entre as mesas, até parar ao seu lado.
-O prazer de seu sorriso à mim oferecido é algo que não tenho a muitos anos, madame. Agradeço e desejo retribuir tal gentileza com uma taça do champagne de sua preferência. - disse ele com um sotaque inglês fabuloso. Ela aceitou e fez o pedido, deliciando-se com champagne fora de uma data comemorativa. Não precisou de muito tempo para que todo aquele divertimento exótico se transformasse em romance. Ela disse que se chamava Dominique. Ele respondeu beijando sua boca de um jeito que ela nunca pensou ser possível. Não existem palavras que possam descrever o jorro de adrenalina que aquilo lhe causou. Eles deram as mãos, pagaram a conta e foram para o seu apartamento. Um apartamento chique e muito espaçoso, comprado com o bom dinheiro que seu marido ganha de salário. Mas ele viaja muito. Ele a deixa sozinha. Muito.

Dominique não sabe exatamente o que aconteceu. Foi mágico. Talvez fosse a bebida, talvez o poder de sensualidade de seu amante. As mãos dele sobre sua pele não causavam a sensação de estar fazendo algo errado. Era natural. E, por deus, como era gostoso. Atingiu mais de oito orgasmos em menos de uma hora. Seus pensamentos caíram num turbilhão fantasioso de imagens incoerentes e ela pode jurar que tocou o firmamento. Demoraria dias para conseguir parar de sorrir. Ou talvez não. Quando escutou a porta da sala se abrindo e a voz dizendo: "Querida! Cheguei!" ela entrou em desespero. Saltou da cama como se estivesse sob ameaça de vida e começou a tentar, desajeitada, colocar uma roupa qualquer. Seu amante sentou-se na cama, calmo e com o mesmo olhar sóbrio de sempre. Ela gritou baixinho, sem saber o que fazer:
-Vista-se! Faça alguma coisa! É meu marido! Meu deus! Faça alguma coisa!
-Acalme-se Dominique. - disse o homem - Você não fez nada de errado.
-Como não!? - perguntou ela ríspidamente - Desde quando adultério não é errado?
-Simples, minha doce senhora. - respodeu ele - Quando você não sabe o que fez.
A porta do quarto abre de repente e Dominique em desespero olha para seu esposo entrando no quarto e profere a frase mais clichê que lhe vem à cabeça:
-Não é o que você está pensando, amor!
Seu marido olha para os lados e diz, com expressão de dúvida:
-O que não é? - olhando para os lados e voltando a olhar para ela.
Ela se vira rapidamente para trás e vê a cama vazia. Fica por quase um minuto em silêncio, trêmula, remoendo pensamentos sem sentido. Então ajoelha-se no chão e se põe a chorar. Seu marido a abraça e pergunta o que houve. Ela lhe diz que se sente muito sozinha. Eles se beijam e tudo volta ao normal. A rotina entra nos eixos e em poucas semanas ela esquece do episódio do homem de chapéu. Apenas irá se lembrar novamente do ocorrido daqui a três meses, quando o médico lhe informar sobre sua gravidez.

3 comentários:

Fefos disse...

Será que vai nascer um mini-hat?? Curti pra caralho esse texto de hoje...

Gordo (sempre ele) disse...

Na boa... A vadia encontra um cara estranho, trepa, gosta e depois se poe a chorar quando o marido chega.
Ela merecia uma surra de cabo de monitor. Porra, o marido viajando a trabalho, pra sustentar a vida bacana que a mina leva e ela ainda trai o cara na sua própria cama. Vadia, vadia, vadia.
O mais legal é ela ficar prenha de um pseudo-talvez-sim-talvez-não-fantasma.
Quem sabe agora que vai ter que criar um meio-humano meio-gasparzinho, ela pensa melhor na cagada que fez.
Vadia, vadia, vadia...

Lady disse...
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